segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Oposição, o talismã do governo

Israel Souza[1]
Nos últimos dias foram muitas as análises que surgiram a fim de explicar o resultado destas eleições. Parte considerável delas deu grande ênfase à estrutura de campanha da FPA (Frente Popular do Acre). Analistas argumentavam que Bocalon era uma espécie de “Davi lutando contra Golias”.
De nossa parte, não resta dúvida de que a estrutura de campanha pesou enormemente em favor da FPA. Convencidos ou tocados por ameaças, os cargos comissionados lutaram como leões nesta campanha, defendo simplesmente o pão (os de menor ganho) ou os privilégios de super-salários.
Também destacado foi o uso dos meios de comunicação. Alguns deles divulgaram pesquisas mais que tendenciosas e/ou sem o devido registro para ajudar o candidato do governo. Preferiram, assim, pagar multas a deixar seu patrão maior sem seus prestimosos serviços.
No mesmo sentido favorável ao governo contou a estreita vinculação do Programa Ruas do Povo à figura de Marcus Alexandre (PT), este boneco de ventríloquo de velhos e novos coronéis. Em bairros onde o programa estava ou estaria em andamento (às vezes, só em promessas), a campanha era mais facilmente articulada.  
Tudo isso contou a favor do governo. Mas é preciso não deixar na sombra como a própria oposição contribuiu para isso.
A candidatura da professora Peregrina expressou, mais uma vez, as dificuldades do Psol estadual, solo infértil para lideranças. Leôncio (PMN) usou como mote de sua campanha o originalíssimo Sim, nós podemos. Mas bem poderia ter usado o Se colar, colou. Trata-se de um sujeito de “espírito aventureiro”, para usar a expressão do historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda (ver Raízes do Brasil). Pretende colher onde não plantou.
Fernando Melo (PMDB) não saiu do Vamos cuidar do que tá bom e arrumar o que tá mal feito. Figura insulsa e “lisa”, não chegou sequer a entrar no mérito do que estaria “bom” e do que estaria “mal feito”. Não surpreende que o apoio de Petecão (PSD) - que, nas eleições de 2010, ganhou mais votos para o Senado do que Tião Viana (PT) para o governo - tenha-lhe sido tão sem proveito.     
Por seu turno, Antônia Lúcia (PSC) foi abandonada pelo vice em plena disputa. Ademais, sempre envolvida em escândalos, a missionária começa a sofrer resistência ostensiva e organizada entre os evangélicos, estes que, em tese, formariam sua base. Certa feita, um “fiel” bem definiu a atuação da missionária. Dizia que ela “parece papel higiênico. Quando não tá no rolo, tá na m...”.
 O susto ficou por conta de Bocalon (PSDB). Todavia, também este contribuiu com o governo.
Grosso modo, seu capital político advém de duas fontes: 1) da “memória eleitoral”. Por ter se candidatado por mais de uma vez, é já conhecido dos eleitores. Isso lhe permitiu sair à frente do candidato do governo nas intenções de voto; 2) a insatisfação com o governo, difusa na sociedade (ver Eleições 2010: um olhar a partir “dos de baixo” e Hegemonia em declínio e subversivismo no governo da FPA).
A oposição que, junta, poderia ter ajudado a multiplicar esse capital, saiu fragmentada. Por outro lado, além de desprovido de carisma, Bocalon apresentou o discurso de sempre, rude, tosco, antipático a muitos. Pensa ele que basta falar a verdade - ou que acha ser a verdade -, com quaisquer palavras ou tons, para convencer o eleitor.
Mas não, não basta. Maquiavel já dizia, nos albores da modernidade, que em política não basta ser. É preciso também parecer (ver O príncipe). Não basta ter razão. É preciso convencer de que se está com a razão. Por força disso, há muitos que, embora mentindo, convencem mais que aqueles que falam a verdade.
Sem surpresa, o candidato do PSDB não apresentou nenhum projeto que suscitasse entusiasmo no eleitor. Continuou fazendo referência a sua Acrelândia. Não compartimos a tese de que por ter governado Acrelândia, cidade de pequeno porte, ele não teria condições de governar a capital acreana, cidade bem maior.
Há pessoas que nunca governaram uma cidade e, entretanto, isso não significa que não tenham condições de fazê-lo. Trata-se de dizer que referir-se apenas à Acrelândia é um discurso pisado e repisado, embotado pelo tempo, maçante até.
Além disso, falta-lhe inteligência política. Mesmo pessoas próximas a ele o chamam de “cabeça dura”. Talvez ele pense que isso é ter personalidade. Pode ser. Importa considerar, no entanto, que sujeitos com esse perfil, sem poder, flertam com a idiotice. Com poder, desposam a tirania.
A verdade é que, de si mesmo, Bocalon pouco agrega às duas fontes de seu capital político. Ele cresce em razão da negação/insatisfação com a FPA. Falta-lhe, porém, crescer também por afirmação própria, isto é, atrair eleitores por si mesmo e não por descontentamento com as forças governistas. Uma e outra coisa são importantes e precisam ser conjugadas, o que não vem ocorrendo.   
Por isso, uma vez desatado o processo eleitoral, “dinheiro na mão é vendaval”. O capital vai se gastando, tomado pelos outros candidatos. Estes colhem mais no campo de Bocalon do que este no deles.
Com efeito, neste segundo turno, ele deve lutar para manter sua votação, e conseguir votos dos outros oposicionistas, dos que não votaram ou votaram em branco ou nulo. E, não obstante, colher na seara petistas e/ou torcer para que algo aí se perca. Tarefa hercúlea, talvez inglória...  
A bem da verdade, para o segundo turno, há de se esperar que os votos da oposição, em que pese o apoio dos outros candidatos, não apenas não migrem in totus para Bocalon, como mesmo se “espatifem”.
Outro fator a pesar em seu desfavor é que seus eleitores, em geral, não têm espírito militante. Até votam. Mas dificilmente saem às ruas ou vão ao vizinho pedir voto. Portanto, não multiplicam os votos.
Por tudo isso, além da estrutura de campanha da FPA, importa tomar em conta a contribuição que a oposição dá às forças governistas. Desse modo, não é exagero dizer que a oposição é uma espécie de talismã do governo.
Sem a menor pretensão de predizer o futuro, afirmamos que o conjunto das coisas aqui discutidas aponta para uma vitória da FPA na capital acreana. Talvez apenas um escândalo de grande monta ou coisa que o valha poderia reverter esta tendência.
Caso ganhe o boneco de ventríloquo, a memória eleitoral que, até aqui, tem sido favorável a Bocalon pode voltar-se contra ele. Não é bom ser lembrado como o vencido. A ninguém ajuda um curriculum tão marcado por derrotas.
Para não cair no ostracismo, melhor seria para ele concorrer a deputado, estadual ou federal. Já as forças oposicionistas, para seu bem, deveriam encontrar novo “messias” em quem depositar suas esperanças.
O cenário estadual perece lhe ser mais favorável. Afinal, ter ganhado apenas 9 prefeituras das 22 em disputa nestas eleições, mostra que, efetivamente, a hegemonia da FPA está em declínio. Isso fortalece a oposição. Mas em parte.
Convém não congelar e supervalorizar o fato. É que não raro o governo coopta os oposicionistas. A exemplo do que acabou de fazer o deputado estadual Luis Tchê (PDT), estes, recebendo vantagens do lado de lá e percebendo a confusão em seu derredor, não costumam perder tempo ou sono com o tema da fidelidade.
Na política como na história, a dinâmica das coisas é como o rio de Heráclito, em contínuo movimento... Os que acreditamos nas forças populares seguimos em expectação.



[1] Cientista Político e Membro do Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental (NUPESDAO). Email: israelpolitica@gmail.com

Um comentário:

padilha disse...

São verdadeiros os limites da oposição apresentados nesta bela análise. Entretanto, penso eu, pesa contra o "ventríloquo" duas outras questões não menos importantes: 1. Para o segundo turno, as composições possíveis à FPA são mínimas, se é que exista alguma. 2. O principal cabo eleitoral da FPA terá menos destaque porque não conseguirá "inaugurar" tantas ruas e, por isso mesmo não terá tanto tempo de exposição para propaganda política em forma de "notícias", além de pesar contra o próprio governador a pecha de não respeitar a vontade popular por ocasião do voto pela volta ao horário. Isso sem falar na possibilidade de haver influência dos mensaleiros do PT.