quarta-feira, 24 de abril de 2013

Menos virtude que cálculo político: o embaraçoso apoio de Jorge Viana à Rede Sustentabilidade

Israel Souza[1]

Situação delicada, a de Jorge Viana. A princípio se nega a apoiar Marina na criação de seu novo partido: Rede Sustentabilidade. Depois, recua e resolve dar o apoio antes negado. Justificou a mudança de posição - que Antônio Alves, mesmo sendo crítico ao PT local, chamou de “brilhante e convincente” - argumentando que considerava a Rede “um movimento legítimo de uma parcela importante da sociedade” (ver Meu nome é Ma).

Alguns entenderam a mudança de postura de Jorge Viana como sinal de coerência na defesa de uma amiga e da pluralidade partidária. Olhando a situação local, porém, interpretamos de modo bastante diverso os motivos do ex-governador.

De nossa parte, não resta dúvida que, quando Jorge Viana se nega a assinar a ficha de apoio à criação da Rede Sustentabilidade, ele pensa como petista e governista. Estava preocupado com a criação de um novo partido que, de alguma forma, aponta os desvios do PT e a maneira destrutiva com que o governo federal vem tratando a questão ambiental. A estas preocupações se somava a de evitar que este novo partido viesse a criar embaraços eleitorais para Dilma no cenário nacional.

Contudo, embora haja diferenças[2] entre Marina e os irmãos Viana, verdade é que Marina nunca lhes negou pública e enfaticamente seu apoio. Eleição após eleição, ela dá sua bênção às candidaturas da FPA. E foi assim mesmo quando, pelo PV, concorreu contra o PT no cenário nacional.

Marina congrega votos dos cansados com o PT e com o governo, dos utópicos e outros tantos que comungam de seu ambientalismo ongueiro-empresarial (ver A rede de Marina). E a impressão de que ela representa algo em tudo diverso ao que está posto no Acre faz com que seu apoio renda votos importantes à FPA.

Querendo ou não, a distância que a ex-senadora mantém da FPA (exagerada por muitos, defendemos) faz parte do jogo e favorece a coalizão. Diante do fortalecimento político-eleitoral da oposição, alardeia-se a desgraça do passado a fim de, com terror, garantir a manutenção da desgraça presente. E assim Marina justifica seu apoio à FPA e rompe com a coalizão sem nunca romper efetivamente.

O apoio de Marina é ainda fundamental para a exportação da imagem de um Acre que, desde a eleição da FPA, vem supostamente concretizando os sonhos de Chico Mendes, respeitando a natureza e crescendo economicamente, harmonizando interesses os mais diversos, das madeireiras e das populações locais. Vale destacar: se críticas há de sua parte ao modelo de desenvolvimento localmente assumido, a ex-senadora nunca lhes deu livre curso.

Ora, ainda que haja outros motivos, o apoio de Jorge Viana à Rede Sustentabilidade se deve a esta importância de Marina para o projeto em curso no Acre. Internamente, os votos que ela ainda é capaz de garantir aos candidatos da FPA. Externamente, seu testemunho em favor das supostas virtudes que o modelo de desenvolvimento sustentável encerraria.

Portanto, negar apoio à Marina repercutiria negativamente tanto no cenário local (perda de votos) como no nacional e no internacional (perda de uma apoiadora de peso, ex-seringueira, a testemunhar em favor do desenvolvimento sustentável acriano).

Foi tentando evitar tais perdas que o ex-governador recuou e deu apoio à Marina. Para seu pesar, tal apoio foi mal recebido por seus correligionários que, diferentemente do PT acriano, não têm em Marina uma aliada e sim uma adversária.

Será menos embaraçoso para o senador se seu partido o liberar para votar segundo suas próprias “convicções” a matéria que impõe limites à criação de novos partidos. Difícil que isso ocorra, mas... pode ser...

Jorge Viana continuará apoiando Marina? Não sabemos. Todavia, seja como for: haverá menos virtude que cálculo político a orientar sua atuação. Afinal, como ele disse recentemente, quando acossado pelo seu partido, ele “nunca foi um rebelde”.


[1] Formado em Ciências Sociais, com habilitação em Ciência Política, mestre em Desenvolvimento Regional e membro do Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental - NUPESDAO. E-mail: israelpolitica@gmail.com
[2] Não negamos a existência de tais diferenças. Só não as reputamos tantas e tão grandes como alguns fazem.

Um comentário:

Lindomar Padilha disse...

Isso é que chamo de beber do próprio veneno ao invés de beber no Próprio Poço.

Acho pouco. Todo castigo é pouco para os traidores.