domingo, 2 de outubro de 2011

Quatro autoridades renunciam, COB convoca greve e governo recua

Episódios são consequência da repressão a indígenas que protestam contra construção de estrada
Quatro autoridades do governo boliviano renunciaram de seus cargos desde segunda-feira (26). As renúncias foram provocadas pela ação violenta da polícia, no domingo (25), contra a marcha dos indígenas das terras baixas, que protestam contra a construção da estrada Villa Tunari-San Ignacio de Moxos. Com truculência, cerca de 500 policiais prenderam parte e dispensaram a grande maioria dos marchantes. Ao menos 15 pessoas ficaram feridas.
O presidente Evo Morales lamentou o episódio, garantiu punição aos culpados e suspendeu as obras da estrada até que uma consulta nacional, centrada nos departamentos de Beni e Cochabamba, se pronuncie por sua continuidade. Ele também anunciou a investigação do caso em conjunto com a ONU. Entretanto, criticou a imprensa por difundir mentiras. Diversos veículos, ainda no domingo, reproduziram a informação do comitê de comunicação da marcha indígena que anunciava a morte de quatro pessoas, entre elas a de um bebê de 3 meses, provocada pelas bombas de gás da polícia. Entretanto, nenhum cadáver foi encontrado e os veículos pediram desculpas pelo equívoco.
Na segunda-feira começaram as baixas dentro do governo. Em desacordo com a repressão, a ministra de Defesa, Cecília Chacón, pediu demissão. Na terça, a diretora geral de Migração, María René Quiroga, agiu da mesma forma e o vice-ministro do Interior, Marcos Farfán, pressionado pelo governo sob alegação de facilitar as investigações, também renunciou ao cargo, mas, em nota, negou que tenha ordenado a repressão. Nesta quarta-feira (28), foi a vez do ministro de Governo, Sacha Llorenti.“Não quero converter-me em instrumento da direita, da oposição que pretende atacar o processo de mudanças estruturais e danificar a imagem de nosso presidente”, disse.

Reações

A violência policial indignou os mais distintos setores da sociedade boliviana. Desde aqueles que historicamente combateram a ascensão indígena e camponesa ao poder boliviano, como o Comitê Cívico de Santa Cruz, até a Central Obrera Boliviana (COB), que anunciou uma greve para esta quarta-feira (28). Uma grande mobilização parou o centro de La Paz, onde está a sede do governo central. O porta-voz da presidência, Ivan Canelas, disse que o governo estava surpreso por ver uma marcha conjunta entre a COB e Samuel Doria Medina - grande empresário, candidato opositor a Evo Morales nas eleições de 2010 e ex-ministro da Economia que, 1991, tinha como lema “privatizar uma empresa por semana”.
As feministas da organização Mujeres Creando picharam alguns ministérios dirigidos por mulheres, exigindo que deixassem seus cargos, e esparramaram tinta vermelha, em alusão ao sangue derramado, no prédio da vice-presidência.
Na terça (27), os coletivos de ciberativistas Anonymous e Lulzec hackearam o site do Ministério do Trabalho, da Defensoria Pública e impediram o acesso ao site da Presidência do país. No site do Ministério Público deixaram a seguinte mensagem: “Hermanos de TIPNIS estamos con ustedes. ‘Defensor de la tierra’, qué pasó con ese título Evo. No seguimos a un partido político, seguimos al pueblo. No luchamos contra un Gobierno, luchamos contra la injusticia. Somos Anonymous. Somos legión. No perdonamos. No olvidamos. Opresores y corruptos esperadnos”. Estes grupos ainda difundiram pela internet as senhas de mais de 4 mil emails de usuários da empresa estatal de telecomunicações Entel, 2,9 mil senhas para acesso a internet sem fio providas pela empresa, a base de dados da Direção de Prevenção e Roubo de Veículos (Diprove) e dados de funcionários do Instituto Geográfico Militar.

Desdobramentos

O defensor público, Rolando Villena, em inspeção na zona de conflito, que nada justifica a intervenção policial. Ele relatou que os marchantes estavam acampados, preparando sua janta, no momento do conflito. Ele afirmou também que não foram encontrados vestígios de uso de arma de fogo, tampouco mortos. Entretanto, a organização da marcha afirma haver 37 pessoas desaparecidas. Nenhuma hipótese está descartada, mas de acordo com o defensor, muitas pessoas fugiram mata a dentro no momento do conflito e as buscas vão continuar.
A dirigente indígena Justa Cabrera afirmou que a marcha se reorganizará para continuar e chegar até a capital La Paz, entretanto, ainda não se sabe aonde ela se reaglutinará. Contudo, o governo central anunciou que a Assembléia do Povo Guarani (APG), uma das organizadoras da marcha, lhe enviou um convite, prontamente aceito, para uma reunião nesta quinta-feira (29).
Fonte: Brasil de Fato 

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