sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A “esquerda passível”

Israel Souza[1]
Nossos dias estão profundamente marcados pelo avanço das forças direitistas, retrógradas. Dentre outras coisas, tais forças têm avançado por certa confusão que grassa em nosso meio. Trata-se daquela confusão que leva uns tantos a tomarem direita por esquerda e esquerda por direita.
Sim. Depois já de tantos anos de governos neoliberais do PT, sacrificando a classe trabalhadora para alimentar bancos e empreiteiras, ainda há quem o defina como esquerda. Assentam tal interpretação no fato de que o partido não vem das “fileiras da direita”.
E assim a história é ignorada. Pois ela mostra, cabalmente, que a socialdemocracia europeia e o trabalhismo inglês, que nasceram indubitavelmente de movimentos operários, apoiaram e promoveram os interesses da classe dominante. Das guerras mundiais à implementação do neoliberalismo, assim o fizeram.
Com efeito, se levarmos em conta as lutas de classes, veremos que é um erro crasso reduzir a direita apenas aos partidos tradicionalmente ligados à classe dominante. Esta não se confunde com seus representantes tradicionais, e, em caso de necessidades que de quando em vez se apresentam no cenário histórico, aceitam que partidos vindos de outras fileiras façam seu trabalho sujo.
Por certo, o PSDB é, nos últimos anos, direita e representante dos interesses da classe dominante no Brasil. Isto, porém, não impediu que, na atual conjuntura, este papel tenha ficado mais a cargo do PT. Pragmática, a classe dominante não se orienta de modo maniqueísta como certos militantes. Sua fidelidade primeira é para com seus interesses, e não para com aqueles que lhe servirão. Para ela, pouco importa as fileiras de onde saíram, saem ou sairão seus servos, contanto que sejam seus servos, dóceis, fiéis.
Práxis. É esse o critério a partir do qual se pode definir se o partido é direita ou de esquerda. Basta verificar de que lado ele se posta na luta de classes. Neste sentido, voltar toda atenção para as origens de Lula e de seu partido só contribui para alimentar a confusão e para justificar capitulações.
Muitos há que acreditam que, ao criticar o governo Dilma, estaríamos contribuindo para o avanço da direita. Mas ela já não está avançando a passos largos e com apoio ativo deste governo? Dizem que, saindo o PT do governo, os pobres e os trabalhadores perderiam. Mas já não estão perdendo com o PT no governo? Como dissemos alhures, PT e PSDB não são mais que as alas vermelha e azul da direita brasileira.
Houve avanços com os governos petistas. Quem poderá negá-lo? Todavia, hoje o próprio governo põe a perder tais avanços, sacrificando-os sob a alegação da estabilidade econômica. Se somarmos a isso a cooptação, a desmoralização e a desmobilização de sindicatos e movimentos sociais levadas a cabo por esses governos, veremos que, muito provavelmente, no fim das contas eles tragam mais malefícios que benefícios. Estamos perdendo não apenas os objetivos da luta, mas também os instrumentos e os sentidos da luta. E esse é o perigo maior.  
Não sei se por cinismo, ingenuidade ou ignorância, ainda há quem diga que, nas condições atuais, o PT é a “esquerda possível”. Fazendo uma generosa concessão a esta fábula de mau gosto, digo, porém, que o PT é a “esquerda passível”. Passível de arruinar a verdadeira esquerda no Brasil e de alimentar ainda mais o ódio de classe, já de si bastante robusto nestas terras.   

[1] Cientista Social com habilitação em Ciência Política, mestre em Desenvolvimento Regional e membro do Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental - NUPESDAO. E-mail: israelpolitica@gmail.com

Um comentário:

Lindomar Padilha disse...

Não tenho dúvida, meu caro, que o PT foi o que de pior houve para a esquerda neste país com influência inclusive na América vizinha. Lamentável!